domingo, 13 de abril de 2008

Dois Grandes Poemas de uma Grande Senhora

Ausência

Num deserto sem água
Num país sem nome
Numa noite sem lua
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

DE UM AMOR MORTO

De um amor morto
De um amor morto fica
Um pesado tempo quotidiano
Onde os gestos se esbarram

Ao longo do ano
De um amor morto não fica
Nenhuma memória
O passado se rende
O presente o devora
E os navios do tempoAgudos e lentos

O levam embora
Pois um amor morto não deixa
Em nós o seu retrato
De infinita demora
É apenas um facto
Que a eternidade ignora

Sophia de Mello Breyner Andresen